Leonardo Cabral em 16 de Julho de 2026
Arquivo pessoal
Desde a noite de 10 de julho, Lino Gonçalves Júnior, de 58 anos, vive um novo capítulo em sua história. Após mais de nove anos dependendo de sessões de hemodiálise para sobreviver, ele recebeu um transplante de rim na Santa Casa de Campo Grande.
A cirurgia foi realizada na sexta-feira, poucas horas depois de Lino ser informado de que havia um órgão compatível disponível para o transplante. Assim que recebeu a notícia, ele e a família seguiram às pressas para a Capital, onde o procedimento foi realizado naquela noite dia.
Após a cirurgia, Lino permaneceu por dois dias no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da Santa Casa. Em entrevista ao Diário Corumbaense, ele relembrou a emoção do momento em que soube que finalmente seria transplantado.
“Foi uma grande surpresa quando recebi a notícia de que era para ir para Campo Grande. Tudo indicava que seria mais difícil conseguir um transplante este ano, mas, quando cheguei em casa, minha esposa me chamou e disse que já estavam me esperando. Foi um sentimento inexplicável. Me deu um branco, fiquei sem reação. Só peguei minhas coisas e fui embora. Foi um impacto muito grande. Parece que não é real, depois a ficha vai caindo”, contou o cabo aposentado da Polícia Militar.
Durante os mais de nove anos de tratamento, Lino enfrentou três sessões semanais de hemodiálise, mas afirma que nunca deixou de acreditar que um dia receberia um novo rim.
“Sabia que era demorado, mas sempre confiei em Deus. Só Ele sabe o momento certo de agir. Sou muito grato, principalmente à família da pessoa que me concedeu essa nova chance. Que Deus abençoe essa família que me deu a oportunidade de continuar vivendo”, disse.
“Os dois copos de água mais gostosos da minha vida”
Um dos momentos mais marcantes do pós-operatório aconteceu depois de deixar o CTI. Pela primeira vez em muitos anos, Lino pôde beber água sem as restrições impostas pelo tratamento.
Pacientes em hemodiálise precisam controlar rigorosamente a ingestão de líquidos, já que os rins deixam de desempenhar adequadamente a função de eliminar o excesso de água e toxinas do organismo.
“Estou me sentindo vivo, alegre e feliz ao lado da minha família e dos meus filhos. É uma felicidade que não se mede, apenas se sente. Assim que pude, pedi dois copos de água bem gelada. Foram os dois copos de água mais gostosos da minha vida. É uma sensação inexplicável, de pura felicidade”, relatou.
Lino ainda ficará por um período de três meses sob acompanhamento médico.
Primeiro paciente de Corumbá a receber rim de doador falecido
Segundo o assistente social da Clínica de Diálise Renal Med, Luiz Mário de Campos Sá, Lino é o primeiro paciente de Corumbá a receber um rim de um doador falecido.
“É importante que a população pense sobre a doação de órgãos. Uma única pessoa pode ajudar muitas outras que aguardam na fila por um transplante. Já tivemos pacientes transplantados em Corumbá, mas receberam rins de familiares compatíveis. Dentro da minha experiência aqui no serviço, o caso do Lino é o primeiro envolvendo um doador falecido”, afirmou à reportagem.
Luiz Mário também destacou a agilidade da mobilização após a confirmação da compatibilidade. Assim que a Central de Regulação do Município foi acionada, um veículo foi disponibilizado para transportar o paciente. Em menos de três horas após receber a notícia, Lino já seguia para Campo Grande e, às 19h, passava pelo transplante.
Doação de órgãos salva vidas
O caso reforça a importância da doação de órgãos, um gesto capaz de transformar e salvar vidas.
No Brasil, a doação após a morte depende exclusivamente da autorização da família, após a confirmação do diagnóstico de morte encefálica. Por isso, especialistas orientam que as pessoas conversem com seus familiares e manifestem, ainda em vida, o desejo de serem doadoras.
Atualmente, 181 pacientes realizam hemodiálise em Corumbá, distribuídos entre os turnos da manhã e da tarde. O município não tem um terceiro turno para atendimento.
Segundo Luiz Mário, Mato Grosso do Sul conta atualmente com dois hospitais habilitados para realizar transplantes renais: a Santa Casa de Campo Grande e o Hospital Adventista do Pênfigo. Pacientes também podem ser encaminhados para unidades especializadas em São Paulo e no Paraná.
Foto enviada ao Diário Corumbaense
Sessões de hemodiálise atendem 181 pacientes atualmente em CorumbáPrevenção é fundamental
Os rins exercem funções essenciais para o organismo, como filtrar o sangue, eliminar toxinas, regular o equilíbrio de líquidos e produzir hormônios.
Um dos principais indicadores da saúde renal é a creatinina, substância eliminada pelos rins e medida por meio de exame de sangue, que pode ser incluído nos check-ups de rotina.
Quando a doença renal crônica atinge estágio avançado, a hemodiálise passa a substituir parte da função dos rins. O tratamento utiliza um dialisador, conhecido como rim artificial, para filtrar o sangue e remover impurezas.
Em geral, os pacientes realizam três sessões por semana, com duração média de quatro horas cada, conforme prescrição médica. A hemodiálise representa o tratamento para os casos em que há perda significativa e progressiva da função renal.
