Rosana Nunes
Divulgação/IHP
Morreu nesta terça-feira (4), aos 81 anos, Vicente Manoel da Silva, conhecido como Seu Vicente, uma das principais referências da cultura e da resistência do povo Guató no Pantanal. Ele faleceu em sua residência, na região da Barra do São Lourenço, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Segundo as primeiras informações, a morte ocorreu por causas naturais. O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso do Sul, por meio da base avançada instalada na Barra do São Lourenço, chegou a prestar atendimento a Seu Vicente.
Nascido em 30 de maio de 1945 e filho de pai e mãe Guató, ele era reconhecido como um dos poucos remanescentes com domínio da língua tradicional do povo indígena. Tornou-se uma referência para pesquisadores, instituições e comunidades que atuam na preservação da cultura e dos modos de vida tradicionais do Pantanal.
Apesar do reconhecimento conquistado ao longo dos anos, Seu Vicente manteve uma vida profundamente ligada às suas raízes. Viveu durante décadas na região do rio São Lourenço, em território associado à presença ancestral dos Guató. No cotidiano, preservava práticas tradicionais, como a pesca nos corixos, o deslocamento em canoa de um pau só e o uso de instrumentos como remo, zinga, arpão, vara de pesca e zagaia.
O conhecimento de Seu Vicente também se estendia às manifestações culturais. Ele sabia tocar ganzá e viola de cocho, mantendo vivos costumes transmitidos entre gerações.
Sua trajetória passou a integrar registros e produções voltados à história e à cultura pantaneira. Uma de suas canoas, confeccionada em madeira de ximbuva, foi doada para ser exposta no Memorial do Homem Pantaneiro, como representação da importância do povo canoeiro e de seus conhecimentos tradicionais para a conservação do território.
A relação de Seu Vicente com aquele pedaço do Pantanal também era marcada pela memória familiar. A casa onde viveu foi compartilhada inicialmente com a mãe, Júlia, dois irmãos e dois tios. Mais tarde, passou a viver sozinho, tendo o Pantanal como companhia permanente. A mãe e um de seus tios, José, foram sepultados nas proximidades da residência, em um espaço considerado sagrado.
Referência para a comunidade
Seu Vicente era tratado como um ancião de grande respeito na região. Instituições, moradores da Barra do São Lourenço e comunidades vizinhas, além de brigadistas e servidores do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, mantinham contato frequente com ele.
Em maio deste ano, a equipe social do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que desenvolve trabalho de monitoramento socioambiental na região da Serra do Amolar, esteve com Seu Vicente durante uma visita à comunidade.
A morte de Seu Vicente representa a perda de uma importante memória viva do Pantanal e de um dos conhecedores da língua e dos costumes Guató.
Conforme informações, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) deverá levar uma urna funerária para a região da Barra do São Lourenço nesta quarta-feira (5), para os procedimentos de sepultamento.
Com informações da assessoria de imprensa do IHP.



