Tenente-coronel é aposentado pela PM enquanto responde por feminicídio

PorErik Silva

A Polícia Militar de São Paulo publicou no Diário Oficial do Estado o despacho que oficializa a transferência para a reserva do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, medida equivalente à aposentadoria na estrutura militar.

O documento saiu nesta terça-feira 9 com a assinatura do diretor de Inatividade e Pensão Militar, coronel Antonio Thomazelli Júnior, e confirma ato que já havia sido antecipado em portaria.

Posição da corporação e efeitos administrativos

Em nota, a Polícia Militar registrou que “ocorreu em conformidade com a legislação vigente e não impede eventual responsabilização penal ou disciplinar”.

De acordo com a PM, o vínculo financeiro do oficial passa a ser com a São Paulo Previdência SPPrev, gestora do Regime Próprio de Previdência do Estado de São Paulo e dos benefícios militares, e apenas uma decisão definitiva do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo pode acarretar perda de posto, patente e remuneração.

Trâmite das investigações e processos

A Corregedoria da instituição concluiu o Inquérito Policial Militar IPM e encaminhou o procedimento à Justiça. A Polícia Civil também finalizou o inquérito policial e remeteu o caso ao Poder Judiciário.

Além disso, foi instaurado um Conselho de Justificação CJ cuja criação foi publicada no Diário Oficial do Estado em 31 de março de 2026 e que segue em fase de instrução, tramitando de forma independente do processo criminal.

O tenente-coronel está preso preventivamente desde 18 de março, acusado pelo feminicídio da soldado Gisele Alves Santana e por fraude processual.

Gisele foi encontrada morta com um disparo na cabeça em 18 de fevereiro no apartamento onde moravam. O militar chamou socorro e registrou inicialmente o caso como suicídio, versão posteriormente alterada para morte suspeita.

Laudos do Instituto Médico Legal IML confirmaram marcas de agressão incompatíveis com suicídio. A família da vítima contestou desde o começo a hipótese de suicídio apresentada no registro.

Nas redes sociais, o advogado Miguel José da Silva Junior, que representa a família de Gisele, manifestou surpresa com o tempo da decisão administrativa e disse que lhe causou espanto a “celeridade da PM em aposentá-lo”.

Em vídeo publicado no Instagram o advogado registrou “Essa aposentadoria não vai barrar o Conselho de Justificação, que vai demiti-lo. Nós temos convicção disso. Por outro lado, não é justo que esse cidadão, que cometeu um crime tão bárbaro, continue recebendo valores à custa da população e inclusive dos pais da Gisele, que pagam seus tributos”.

As ações disciplinares e penais seguem em curso e a documentação referente à movimentação administrativa foi formalizada no Diário Oficial, enquanto as apurações tocadas por corregedoria e polícia prosseguem conforme os prazos legais.