PorErik Silva10 de junho de 2026
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O crescimento da mineração em Corumbá tem provocado mudanças cada vez mais perceptíveis na vida de comunidades localizadas próximas às áreas de extração e escoamento de minério. Em Porto Esperança e Antônio Maria Coelho, moradores relatam uma rotina marcada pela poeira constante, ruídos de máquinas e caminhões durante o dia e a noite, além de preocupações com a saúde, o meio ambiente e a própria sobrevivência econômica das famílias que vivem na região.
Para quem acompanha a transformação da localidade há décadas, o sentimento é de que a atividade mineral passou a ocupar um espaço cada vez maior no cotidiano da população.
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“Aqui agora se chama apenas porto, o porto da mineradora. Porque a nossa esperança acabou”, afirma a aposentada Nair Mosqueira Barros, de 81 anos.
Moradora antiga da comunidade, ela descreve uma realidade distante daquela vivida antes da intensificação das operações ligadas ao transporte e embarque de minério.
“Essa estrada não foi feita para a comunidade, vivemos um inferno aqui com o barulho de caçamba, máquinas e a poeira”, relata.

Segundo ela, durante determinados períodos do ano, principalmente nos meses de ventos mais intensos, o problema se agrava.
“Quando é vento sul, como nessa época do ano, a movimentação do minério traz a poeira e o desconforto. A gente vive respirando esse pó, causa muitas doenças, como tosse alérgica, náuseas, irritação nos olhos. Não consigo dormir com os embarques à noite”, conta.
Os relatos se repetem em diferentes pontos da comunidade. Casas, árvores, cercas e até reservatórios de água acabam cobertos por uma fina camada avermelhada de poeira que acompanha diariamente o deslocamento das cargas minerais em direção ao porto.

Comunidades convivem com mudanças na economia local
Além das reclamações relacionadas à qualidade de vida, moradores também apontam mudanças na dinâmica econômica da região.
A pescadora Alessandra Lino Nascimento, de 34 anos, mora com os quatro filhos próximo à área portuária e afirma que a movimentação crescente alterou a rotina da comunidade e afetou atividades que durante anos garantiram renda para diversas famílias.

“Ninguém se atreve a passar pela estrada à noite por medo; é muito perigoso”, afirma.
Ela relata que a redução do fluxo de visitantes impactou diretamente sua principal fonte de renda.
“Hoje não tem para quem vender as iscas. Eu ganhava até R$ 3 mil por mês, agora não ganho nada.”
Porto Esperança possui uma relação histórica com a pesca, o turismo de contemplação e as atividades ligadas ao Rio Paraguai. Para parte dos moradores, o avanço da atividade mineral trouxe uma nova configuração econômica para a região, mas sem que todos os setores da comunidade fossem beneficiados da mesma forma.

Entre reclamações e convivência com a atividade
Apesar das críticas, lideranças comunitárias afirmam que o relacionamento com as empresas instaladas na região nem sempre ocorre de forma conflituosa.

A presidente da Associação de Moradores de Porto Esperança, Ingrid Aparecida Barbosa, reconhece que os problemas relacionados à poeira persistem, mas afirma que há diálogo entre a comunidade e a mineradora.
“A poeira é constante, então ou sai ou fica, mas ninguém tem em mente deixar o povoado”, afirma.
Ela também destaca que existem discussões envolvendo a regularização fundiária das áreas ocupadas pelos moradores.

“O problema existe, mas a empresa tem dialogado sempre e ninguém sairá perdendo”, garante.
Pantanal sob pressão
As preocupações da população não se limitam aos impactos sentidos dentro das comunidades. Moradores e ambientalistas também acompanham com atenção os efeitos da expansão mineral sobre áreas consideradas sensíveis do Pantanal.

A região abriga espécies ameaçadas de extinção e concentra áreas classificadas como prioritárias para conservação ambiental. Estudos ambientais produzidos para empreendimentos minerários registram a presença de animais como onça-pintada, cervo-do-pantanal, ariranha, anta e tamanduá-bandeira em áreas próximas às operações.
Pesquisadores também têm alertado para a vulnerabilidade do sistema hídrico pantaneiro diante das transformações ocorridas nas últimas décadas.
Um dos episódios mais lembrados na região foi o desaparecimento do Córrego Urucum, localizado no Maciço do Urucum. Estudos realizados após o secamento apontaram alterações no lençol freático associadas à atividade extrativista desenvolvida na área.

Nos últimos anos, moradores também passaram a registrar imagens de vegetação coberta por poeira mineral e de animais circulando em áreas próximas aos corredores de transporte utilizados pelas mineradoras.
Desenvolvimento e desafios
A mineração continua sendo uma das principais atividades econômicas de Corumbá e responde por investimentos bilionários previstos para os próximos anos. Ao mesmo tempo, comunidades que convivem diariamente com a atividade afirmam que o debate não pode se limitar aos números de produção.

Para quem vive às margens das estradas utilizadas pelo transporte de minério ou próximo às áreas de embarque, os impactos são percebidos todos os dias, seja na poeira que invade as residências, no barulho constante das operações ou nas mudanças observadas ao longo dos anos na paisagem e no modo de vida tradicional do Pantanal.
