PorRedação14 de abril de 2026
Relatório divulgado pela Fundação do Câncer identifica que bases oficiais brasileiras carecem de informações essenciais para orientar políticas de prevenção e tratamento do câncer de pele, doença que registrou 5.588 óbitos no país em 2023. A análise cruzou dados dos Registros Hospitalares de Câncer, do Integrador dos Registros Hospitalares de Câncer e do Sistema de Informação sobre Mortalidade.
Metodologia e lacunas nos registros
O estudo, divulgado hoje pela instituição, apontou 452.162 casos de câncer de pele registrados entre 2014 e 2023, com maior ocorrência entre pessoas a partir dos 50 anos. Na avaliação dos pesquisadores, as bases oficiais apresentam ausência de dados relevantes, com mais de 36% das notificações sem informação de raça ou cor da pele e cerca de 26% sem escolaridade registrada, limitações que comprometem o direcionamento de ações públicas.
A incompletude dos formulários varia por região do país. A Região Sudeste concentrou os maiores percentuais de faltas no registro de raça e cor da pele, com 66,4% nos casos de câncer de pele não melanoma e 68,7% nos casos de melanoma. A Região Centro-Oeste teve os piores índices de ausência de escolaridade, com 74% nos casos não melanoma e 67% nos casos de melanoma.
Alfredo Scaff, coordenador do estudo e epidemiologista da Fundação do Câncer, ressalta a importância desses registros para a definição de políticas públicas, “As informações são importantes em um país como o nosso, onde a radiação ultravioleta é muito alta ou extremamente alta”. Segundo Scaff, os dados podem direcionar ações de prevenção e até auxiliar na detecção e no tratamento precoces do câncer de pele, contribuindo para a redução do diagnóstico tardio.
Riscos, tipos e previsões
Conforme dados do Instituto Nacional do Câncer, o câncer de pele é o tipo mais comum no Brasil. Entre os tumores estão os carcinomas basocelular e espinocelular, que se originam na epiderme, e o melanoma, menos frequente, porém mais agressivo e com maior potencial de disseminação. O Inca projeta que, entre 2026 e 2028, sejam registrados por ano aproximadamente 263.282 novos casos de câncer de pele não melanoma e 9.360 casos de melanoma, com maior incidência prevista na Região Sul.
O pesquisador chama atenção para a amplitude das formas de exposição ao sol e à radiação ultravioleta, “Como a radiação ultravioleta é o principal fator de risco para o câncer de pele, logo vêm à mente das pessoas duas coisas: praia e protetor solar, mas esse não é o único meio de risco e proteção”. Ele acrescenta que grupos que trabalham ao ar livre apresentam risco elevado e que a proteção deve incluir equipamentos e vestimentas além do filtro solar, “É prioritário pensarmos que pessoas que trabalham ao ar livre têm grande risco de desenvolver o câncer de pele, como garis, policiais, trabalhadores da construção civil e da agricultura, entre outros. O agro é muito forte no Brasil. Portanto, temos que pensar no protetor solar, mas também nos demais equipamentos de proteção individual, como blusas, chapéus e até óculos com proteção UV”.
Scaff também destacou o papel de fontes artificiais na exposição ao risco e alertou sobre padrões distintos de exposição associados a tipos diferentes da doença, “Uma exposição intensa e intermitente, especialmente com queimaduras solares na infância e adolescência, aumenta o risco de melanoma, enquanto a exposição crônica está mais associada aos cânceres de pele não melanoma.”
O relatório evidencia ainda diferenças por sexo e região: o câncer de pele não melanoma atinge principalmente homens, enquanto o melanoma afeta homens e mulheres de maneira semelhante em todas as regiões. Em 2024 a Região Sul registrou as maiores taxas de mortalidade por melanoma, com destaque para os homens.
A Agência Brasil entrou em contato com o Ministério da Saúde, que ainda está analisando os resultados da pesquisa da Fundação do Câncer, e aguarda uma manifestação.
