PorErik Silva15 de julho de 2026
“Só opera se fechar“. “Senão vai morrer todo mundo“. “Deixa o povo sem leito lá“.
As frases fazem parte de conversas obtidas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) durante a investigação que apura um suposto esquema de venda fraudulenta de livros a prefeituras de Mato Grosso do Sul. Segundo o Ministério Público, os diálogos indicam que a estrutura pública da saúde estadual teria sido usada como instrumento de pressão para favorecer contratos da Editora Avante.
As mensagens atribuídas ao servidor que ocupava cargo de confiança, o ex-coordenador de Regulação Assistencial da Secretaria de Estado de Saúde, Ed Carlo Britto Burgatt, e ao advogado Gabriel Taquino de Paula, apontado como representante comercial da editora, mostram negociações em que vagas para cirurgias, exames e leitos aparecem vinculadas ao avanço das vendas nos municípios. Ambos foram presos durante a Operação Gutenberg.

Segundo o relatório da investigação, um dos episódios ocorreu em agosto de 2022, durante negociações com a Prefeitura de Nova Alvorada do Sul. Após reclamar que havia ajudado o município “pra nada”, Ed Carlo escreveu “Vou trancar“, seguido de “Eu tranco tudo aqui“, “não ajudo eles em nada” e “saúde zero“. Para o Gaeco, as mensagens representam ameaça de restringir o acesso a procedimentos de saúde caso a negociação comercial não fosse concluída.
Na sequência das conversas, Gabriel informou que Ed Carlo receberia R$ 80 mil caso o negócio fosse fechado. Logo depois, o então servidor respondeu. “Vou dar 300 mil de exames pra eles, fora as cirurgias. A escolha é deles“.
Os investigadores também destacam mensagens que demonstram preocupação em manter o esquema sob sigilo. Em determinado trecho, Gabriel afirma que ninguém poderia tomar conhecimento do acordo. Ed Carlo responde. “Tenho um cargo em jogo“. Em seguida, encerra a conversa com um pedido. “Então boca de siri“.

“Vai morrer todo mundo”
Em setembro de 2022, as conversas ficaram ainda mais explícitas, segundo o Gaeco.
Ao discutir uma proposta comercial para Nova Alvorada do Sul, Gabriel escreveu. “Só opera se fechar“. Poucos segundos depois acrescentou. “Senão vai morrer todo mundo“.
Dias depois, ao saber que a prefeitura alegava falta de orçamento para contratar a editora, novas mensagens sugerem uma possível retaliação. “Deixa o povo sem leito lá“, escreveu Gabriel. No dia seguinte, reforçou. “Suspende as cirurgias de Nova Alvorada“. A justificativa veio logo depois. “O cara não cumpriu“.
Para o Ministério Público, as mensagens reforçam a hipótese de que procedimentos regulados pelo Estado eram utilizados como mecanismo de pressão durante as negociações.
Conversas também citam Ivinhema
A investigação aponta que o mesmo padrão de atuação aparece em conversas envolvendo o município de Ivinhema.
Em novembro de 2022, Gabriel encaminhou pedidos relacionados à área da saúde e prometeu um “presente bom” caso conseguisse fechar a venda no município.
Ed Carlo respondeu. “Eu resolvo tudo“, mas condicionou a ajuda. “Se ele nos ajudar lá“. Em outro trecho, afirmou. “Eu resolvo a vida dele na saúde“.
Já em janeiro de 2023, Gabriel informou que teria reunião com o prefeito e pediu ajuda para um paciente. O então servidor respondeu. “Assim que o prefeito sair da sala, a vaga está garantida“. Ao descobrir que o paciente era parente do gestor municipal, afirmou que conseguiria resolver o caso, informando posteriormente ter obtido atendimento em Nova Andradina.
O relatório do Gaeco também aponta que Ed Carlo recebeu R$ 50,5 mil da Editora Avante em duas transferências bancárias. Além disso, Gabriel aparece, segundo a investigação, como responsável pelo saque de R$ 48 mil da conta da empresa, elemento que, para os investigadores, reforça sua participação direta na operação comercial.
Prefeitos negam irregularidades
Segundo reportagem do Campo Grande News, o prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (PP), afirmou que nunca houve qualquer negociação envolvendo vagas na saúde.
Segundo ele, o município adquiriu livros da Editora Avante após a pandemia, em contratos que somaram cerca de R$ 700 mil, mas negou qualquer condicionamento relacionado ao atendimento de pacientes.
Já o prefeito de Nova Alvorada do Sul, José Paulo Paleari (PP), declarou que nunca conversou com os investigados e afirmou que o município não adquiriu livros da editora citada na investigação.
O espaço permanece aberto para manifestação da defesa dos investigados. Caso haja posicionamento, esta matéria será atualizada.
