PorErik Silva8 de julho de 2026
Enquanto a produção de minério de ferro segue em expansão em Corumbá, a Prefeitura afirma que o retorno econômico para o município caminha em direção oposta. Além da queda na arrecadação da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), a administração municipal aponta redução do ISS, mudanças nas operações fiscais que podem afetar a participação da cidade na divisão do ICMS e o enfraquecimento da cadeia de fornecedores locais como fatores que vêm reduzindo a receita pública ligada à mineração.
A avaliação consta em resposta oficial encaminhada ao Folha MS, na qual a Prefeitura sustenta que o crescimento da atividade extrativa não tem sido acompanhado pelo aumento da arrecadação municipal. Segundo o município, o cenário compromete investimentos em áreas essenciais e limita a capacidade de enfrentar os impactos provocados pela expansão da mineração.
De acordo com a administração municipal, o problema não se resume à queda dos royalties minerais. A Prefeitura afirma que identificou um conjunto de fatores que, somados, reduzem a riqueza que permanece em Corumbá mesmo diante do avanço da produção.

Entre eles está a redução da arrecadação do ISS, atribuída à mudança no modelo operacional adotado pelas mineradoras. Segundo o município, atividades antes executadas por empresas terceirizadas passaram a ser realizadas diretamente pelas próprias companhias, reduzindo a movimentação econômica local e a arrecadação do imposto sobre serviços.
Outro ponto destacado é a alteração na forma como parte das operações comerciais passou a ser registrada. Conforme a Prefeitura, mudanças nos códigos utilizados nas notas fiscais podem influenciar o cálculo da participação de Corumbá na distribuição do ICMS estadual, embora a administração ressalte que depende de informações detalhadas da Secretaria de Estado de Fazenda para concluir a análise técnica.
Na resposta enviada à reportagem, a Prefeitura afirma que o município não possui acesso às notas fiscais individualizadas das empresas e, por isso, depende das informações fornecidas pelo Estado para aprofundar a apuração.

Além das questões tributárias, a administração municipal relata que empresas locais dos setores de logística, manutenção mecânica, locação de máquinas e prestação de serviços perderam espaço nos últimos anos com a internalização de atividades pelas mineradoras.
Segundo a Prefeitura, esse processo reduziu a circulação de recursos na economia local e diminuiu o efeito multiplicador que tradicionalmente acompanha grandes empreendimentos industriais.
Produção aumenta enquanto arrecadação diminui
O diagnóstico apresentado pelo município reforça um cenário que já vinha sendo observado nos dados da arrecadação mineral.
Entre 2022 e 2025, os repasses da CFEM destinados a Corumbá caíram de R$ 39,4 milhões para aproximadamente R$ 19 milhões. Apenas entre 2024 e 2025, a redução foi superior a R$ 13 milhões.
Ao mesmo tempo, a LHG Mining, uma das principais empresas da região mantém um plano de expansão da produção de minério de ferro. A empresa projeta elevar a capacidade anual de 12 milhões para 16 milhões de toneladas, com previsão futura de alcançar até 25 milhões de toneladas por ano após novos investimentos.

Para a Prefeitura, esse descompasso demonstra que o crescimento da produção não tem refletido no fortalecimento das receitas municipais.
A administração afirma ainda que parte da produção atualmente ocorre em áreas pertencentes ao município de Ladário, fator que também influencia a distribuição dos royalties minerais, mas ressalta que essa situação não explica sozinha a redução observada nos últimos anos.
Reflexos chegam aos serviços públicos
Ainda conforme a resposta da Prefeitura, a redução da arrecadação limita investimentos em infraestrutura, saúde, educação e manutenção urbana justamente em um período de aumento das demandas provocadas pela atividade minerária.
A administração cita que o intenso fluxo de caminhões, o desgaste das vias, a necessidade constante de manutenção da sinalização e os impactos ambientais elevam os custos do município, enquanto a arrecadação apresenta comportamento inverso.

Na avaliação técnica encaminhada ao Folha MS, a Prefeitura conclui que existe um descompasso entre a expansão da mineração e os recursos efetivamente incorporados ao orçamento municipal.
Empresa destaca investimentos e medidas ambientais
Procurada pela reportagem, a LHG Mining informou que mantém ações voltadas ao desenvolvimento da região, além de medidas permanentes para controle da poeira gerada pela atividade. Em relação a questão tributária e econômica mencionadas na reportagem, a nota emitida pela empresa não respondeu aos questionamentos.
Confira a íntegra da nota enviada pela empresa:
“A Lhg Mining nasceu com o compromisso de impulsionar o setor, gerar empregos e oferecer uma solução integrada para uma cadeia de produção mais sustentável. Atualmente, a companhia possui capacidade de produção de 12 milhões de toneladas por ano e conta com 2.400 colaboradores atuando diretamente em suas operações na cidade de Corumbá (MS), para garantir processos eficientes, seguros e alinhados aos mais altos padrões de sustentabilidade e qualidade.
Como parte do seu compromisso com a comunidade, a Lhg Mining apoiou a execução de obras voltadas à melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida em Porto Esperança, entregues à população em 10 de junho. Desenvolvidas em parceria com a comunidade e o poder público, as iniciativas incluíram a implantação de um playground, uma academia ao ar livre e um espaço de convivência, além de contribuições para a substituição das tubulações de água que atendem os moradores e para a reforma de uma ponte local.
A Lhg Mining também adota medidas permanentes para o controle da poeira, incluindo a umectação de vias, o monitoramento ambiental e controles operacionais, em conformidade com a legislação vigente.
A companhia mantém diálogo aberto com a comunidade e atenção permanente às demandas locais relacionadas à sua atuação, reforçando seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida da população.”
A reportagem também procurou a Agência Nacional de Mineração (ANM), a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz-MS) e o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto.
