Leonardo Cabral em 24 de Junho de 2026
Anderson Gallo/Diário Corumbaense
Nem mesmo a chuva e a queda brusca da temperatura impediram que tradição centenária fosse mantida em Corumbá. Na noite de 23 para 24 de junho, devotos e festeiros desceram a Ladeira Cunha e Cruz, no Porto Geral, carregando coloridos andores para cumprir um dos mais importantes rituais religiosos e culturais da cidade: o banho da imagem de São João Batista nas águas do rio Paraguai.
Guiados pelas bandeirolas que enfeitavam o caminho até o rio, os festeiros percorreram o tradicional corredor formado por mais de 100 andores, mantendo viva uma manifestação de origem portuguesa que atravessa gerações e se repete todos os anos durante a celebração do santo junino.
A festa, que faz referência ao batismo de Jesus por João Batista nas águas do rio Jordão, tornou-se uma marca da identidade cultural de Corumbá, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2021. A celebração começa ainda nas casas dos festeiros, onde são preparadas comidas típicas, realizadas orações e agradecimentos pelas bênçãos recebidas. Muitos devotos também aproveitam o momento para cumprir promessas ou renovar pedidos de proteção.
Anderson Gallo/Diário Corumbaense
Muita gente passou sete vezes por baixo de andores para “garantir” casamentoPassar sete vezes por baixo do andor de São João também é uma das simpatias mais famosas e divertidas da festa em Corumbá. Ela mistura a devoção religiosa com o folclore popular pantaneiro. O principal mito garante que a pessoa solteira que passar por baixo de sete andores diferentes conseguirá um casamento na certa no próximo ano.
Festeiras comandam a tradição
Um dos aspectos que mais chamam atenção na festa é o protagonismo feminino. Entre os 109 festeiros cadastrados oficialmente pela Prefeitura de Corumbá, 84 são mulheres, demonstrando a força da devoção feminina na preservação desse patrimônio cultural.
Representando a Associação Ribeirinha Quilombola da família Osório, a devota Angélica Rodrigues Osório desceu a ladeira acompanhada de familiares e amigos. Ao som dos cânticos dedicados a São João, ela destacou o significado da celebração.
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Andor da família Osório antes de ser banhado nas águas do rio Paraguai“É alegria, saúde, humanidade, amor ao próximo e amor ao mundo. Tudo isso representa esse momento lindo que vivemos todos os anos. Viva São João, viva João Batista, que ele possa nos abençoar sempre”, afirmou.
A tradição também é mantida por gerações de mulheres pantaneiras, como Marilda Fonseca, moradora do bairro Aeroporto, que levou o andor de São João pela 14ª vez. Ela conta que herdou a missão do irmão e decidiu continuar o legado.
“Quando assumi após a partida do meu irmão, passaram-se sete anos, mas ganhei amor, ganhei carinho e resolvi seguir com a tradição. Hoje já são 14 anos descendo a ladeira e trazendo meu protetor para ser banhado nas águas do rio Paraguai”, relatou.
Cada andor carrega características próprias e representa histórias particulares de fé. Grandes, médios ou pequenos, eles se encontram durante o percurso na Ladeira Cunha e Cruz, em um momento marcado pelo respeito e pela reverência entre os festeiros. Os cortejos são acompanhados por cânticos em homenagem ao santo, embalados por instrumentos como violões, sanfonas e bumbos.
Leonardo Cabral/Diário Corumbaense
Rosely preferiu a calmaria da tarde para renovar a féPara alguns devotos, a preferência é pela tranquilidade das horas anteriores à grande movimentação da noite. Foi o caso de Rosely Deise da Silva Santos, que aproveitou a tarde para levar um pequeno andor recebido de presente de uma amiga.
“Não importa o tamanho da imagem ou do andor, o que importa é a fé e a devoção a São João. Antes eu via os andores, hoje sou eu quem participa. Esse momento é muito especial, traz uma calmaria e peço bênçãos não só para nós, mas para toda a nossa cidade”, contou.
A louvação durante o cortejo
A louvação ao santo tem dois momentos marcantes durante a procissão pelas ruas da cidade até as margens do rio Paraguai. Ouve-se primeiro a ladainha: “Deus te salve João / Batista sagrado / O teu nascimento / Nos tem alegrado.”
Logo após, a banda imprime um ritmo carnavalesco e o povo pula de alegria, cantando: “Se São João soubesse que hoje era o seu dia / Descia do céu à terra / Com prazer e alegria.”
Anderson Gallo/Diário Corumbaense
Momento de renovação da fé: o banho da imagem de São João no rio ParaguaiJá nas margens do rio, a emoção toma conta dos participantes durante o banho da imagem, quando fiéis entram na água, fazem pedidos e agradecem pelas graças alcançadas.
A celebração mistura religiosidade, cultura popular e manifestações tradicionais, em um encontro que reúne diferentes expressões de fé. Após o banho, os andores retornam às casas dos festeiros pela Ladeira Cunha e Cruz, onde permanece a tradição de cumprimentar aqueles que seguem no caminho contrário, fortalecendo os laços de uma festa que faz parte da história de Corumbá.
Tradição vem do século 19
Os primeiros registros do Banho de São João em Corumbá e Ladário são datados do final do século XIX em jornais da época que já relatavam a forma singular dos festejos juninos nas duas cidades pantaneiras. Estudiosos afirmam que os festejos reúnem uma miscelânea de influências de povos, entre eles, os árabes e portugueses. Também marcam os festejos, o sincretismo religioso, sobretudo entre o catolicismo e as religiões de matrizes africanas.
