PorErik Silva19 de junho de 2026
O avanço da mineração em Corumbá tem transformado não apenas a economia da região, mas também a paisagem de uma das áreas ambientalmente mais sensíveis do país. Em meio ao crescimento acelerado da produção de minério de ferro e aos projetos de expansão anunciados para os próximos anos, moradores, pesquisadores e organizações ambientais apontam uma série de impactos que já podem ser observados no entorno das áreas de exploração e dos corredores logísticos utilizados para escoamento da produção.
Durante visita realizada pela equipe do Folha MS à região de Porto Esperança, distrito localizado às margens do Rio Paraguai, foram registrados trechos cobertos por poeira de minério, vegetação atingida pelo material particulado, áreas alteradas pela atividade extrativista e o intenso fluxo de carretas que transportam minério diariamente entre as minas e os terminais portuários.

As imagens revelam um contraste cada vez mais evidente entre a paisagem natural do Pantanal e as estruturas associadas à atividade mineral. Em alguns pontos, o verde característico da vegetação pantaneira divide espaço com extensas áreas alteradas pela exploração mineral, pátios de estocagem e corredores logísticos utilizados para transporte da produção.
A expansão da atividade ocorre em ritmo acelerado. A LHG Mining, principal mineradora da região, projeta ampliar sua produção de 12 milhões para 16 milhões de toneladas anuais e mantém planos de alcançar até 25 milhões de toneladas nos próximos anos. Paralelamente, a empresa também conduz projetos para ampliar sua infraestrutura de armazenamento e embarque de minério em Corumbá.
O crescimento da produção, porém, tem ampliado preocupações relacionadas aos impactos ambientais acumulados sobre o Pantanal.

Espécies ameaçadas convivem com expansão mineral
O próprio Relatório de Impacto Ambiental elaborado para a ampliação do terminal portuário da LHG registra que a área de influência do empreendimento está inserida integralmente no bioma Pantanal e em região considerada prioritária para conservação da biodiversidade pelo Ministério do Meio Ambiente.
O documento também aponta a ocorrência de espécies ameaçadas de extinção, entre elas a onça-pintada, o cervo-do-pantanal, a ariranha, a anta e o tamanduá-bandeira.

Além desses animais, pesquisadores e entidades ambientais vêm chamando atenção para a presença da harpia, considerada uma das aves de rapina mais raras das Américas. A identificação recente de ninhos da espécie em áreas do Pantanal reforçou o debate sobre a necessidade de proteção dos habitats naturais diante da expansão de grandes empreendimentos.
Para especialistas que acompanham o tema, o desafio não está apenas nos impactos diretos da mineração, mas principalmente nos efeitos acumulados provocados pela abertura de novas áreas, aumento do tráfego de cargas, movimentação portuária, supressão vegetal e alterações na dinâmica ambiental da região.

Poeira alcança casas, vegetação e recursos hídricos
Nas comunidades localizadas próximas às rotas utilizadas pelo transporte mineral, a principal reclamação continua sendo a poeira.
Moradores de Porto Esperança e de Antônio Maria Coelho relatam que o material levantado pelas carretas cobre residências, plantações, cercas, árvores e até reservatórios utilizados para abastecimento doméstico.

A aposentada Nair Mosqueira Barros, de 81 anos, afirma que a situação se tornou parte da rotina da comunidade.
“Quando é vento sul, como nessa época do ano, a movimentação do minério traz a poeira e o desconforto. A gente vive respirando esse pó, causa muitas doenças, como tosse alérgica, náuseas, irritação nos olhos. Não consigo dormir com os embarques à noite”, relatou.
Além dos impactos relatados pelos moradores, imagens registradas na região mostram vegetação coberta por poeira avermelhada e sedimentos associados à movimentação mineral.

A preocupação não se limita ao incômodo diário. Comunidades locais também questionam possíveis reflexos sobre a qualidade da água, sobre a fauna silvestre e sobre áreas utilizadas para pesca e agricultura familiar.
Histórico de impactos ambientais preocupa moradores
Os receios atuais são reforçados por episódios ambientais já registrados na região.
Um dos casos mais lembrados por pesquisadores e moradores é o desaparecimento do Córrego Urucum, no Maciço do Urucum. Antes considerado um importante manancial local, o curso d’água perdeu gradativamente sua vazão até secar completamente.

Estudos realizados na época associaram o problema ao rebaixamento do lençol freático provocado pelas atividades de mineração desenvolvidas na região. O episódio também foi relacionado a alterações geológicas decorrentes da exploração mineral.
As consequências ultrapassaram o local onde o fenômeno ocorreu. O comprometimento do sistema hídrico afetou áreas vizinhas e contribuiu para mudanças em ambientes associados ao córrego.
O histórico é frequentemente citado por ambientalistas como exemplo da necessidade de monitoramento permanente dos impactos gerados pela atividade extrativista.
Rio Paraguai também está no centro do debate
A preocupação ambiental não se restringe às minas, a ampliação da infraestrutura logística destinada ao transporte de minério tem provocado discussões sobre os possíveis efeitos da atividade sobre o Rio Paraguai, principal eixo hídrico do Pantanal.
Além da expansão portuária em Corumbá, organizações ambientais questionam projetos ligados à futura concessão da Hidrovia Paraguai-Paraná, que prevê intervenções em trechos do rio para garantir melhores condições de navegação.

Entidades ambientais defendem que alterações no leito do Rio Paraguai podem afetar o regime natural das cheias, considerado essencial para a manutenção do equilíbrio ecológico do Pantanal.
O tema motivou audiências públicas, manifestações de pesquisadores e mobilização de organizações da sociedade civil que pedem avaliações ambientais mais amplas antes da implementação dos projetos.
Desenvolvimento e preservação seguem em rota de colisão
Enquanto a mineração consolida Corumbá como um dos principais polos minerais do país, cresce também o debate sobre os limites dessa expansão em uma região reconhecida internacionalmente por sua importância ambiental.
Para moradores das comunidades diretamente afetadas, a discussão vai além dos indicadores econômicos e dos investimentos bilionários anunciados pelo setor.
O que está em jogo, segundo eles, é a capacidade de conciliar geração de riqueza com preservação dos recursos naturais que sustentam a vida no Pantanal.

A discussão ganha força justamente no momento em que a atividade mineral alcança novos patamares de produção, amplia sua infraestrutura logística e reforça sua presença em áreas cada vez mais próximas de comunidades tradicionais e de ecossistemas considerados estratégicos para a conservação da biodiversidade brasileira.
Procurada pela reportagem, a LHG Mining informou que mantém ações de controle ambiental e relacionamento com as comunidades próximas às suas operações. A empresa afirmou que realiza umectação das vias utilizadas pelo transporte mineral, monitoramento ambiental e controles operacionais. Também destacou investimentos recentes em Porto Esperança, incluindo melhorias na infraestrutura local e espaços de convivência para a população.
Confira a íntegra da nota enviada pela empresa:
“A Lhg Mining nasceu com o compromisso de impulsionar o setor, gerar empregos e oferecer uma solução integrada para uma cadeia de produção mais sustentável. Atualmente, a companhia possui capacidade de produção de 12 milhões de toneladas por ano e conta com 2.400 colaboradores atuando diretamente em suas operações na cidade de Corumbá (MS), para garantir processos eficientes, seguros e alinhados aos mais altos padrões de sustentabilidade e qualidade.
Como parte do seu compromisso com a comunidade, a Lhg Mining apoiou a execução de obras voltadas à melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida em Porto Esperança, entregues à população em 10 de junho. Desenvolvidas em parceria com a comunidade e o poder público, as iniciativas incluíram a implantação de um playground, uma academia ao ar livre e um espaço de convivência, além de contribuições para a substituição das tubulações de água que atendem os moradores e para a reforma de uma ponte local.
A Lhg Mining também adota medidas permanentes para o controle da poeira, incluindo a umectação de vias, o monitoramento ambiental e controles operacionais, em conformidade com a legislação vigente.
A companhia mantém diálogo aberto com a comunidade e atenção permanente às demandas locais relacionadas à sua atuação, reforçando seu compromisso com o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida da população.”
