PorErik Silva9 de junho de 2026
Corumbá vive um cenário que chama a atenção de autoridades e especialistas. Enquanto a mineração atravessa um dos períodos de maior expansão de sua história recente, impulsionada principalmente pela atuação da LHG Mining, a arrecadação municipal proveniente da exploração mineral segue trajetória oposta e acumula sucessivas quedas nos últimos anos.
Dados da Prefeitura de Corumbá, com base em informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), mostram que os repasses da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) passaram de R$ 39,4 milhões em 2022 para R$ 19 milhões em 2025. A redução representa uma perda superior a R$ 20 milhões em apenas três anos.
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A tendência de retração também permanece em 2026. Entre janeiro e abril, o município recebeu R$ 4,3 milhões, contra R$ 7,8 milhões registrados no mesmo período do ano anterior, uma queda de 44,7%. Apenas em abril, o valor recolhido despencou de R$ 1,67 milhão para R$ 452 mil.
O comportamento dos números contrasta com a realidade observada no setor mineral. Nos últimos anos, Corumbá consolidou sua posição como um dos principais polos de produção de minério de ferro e manganês do país, atraindo investimentos e ampliando sua capacidade produtiva.
A principal protagonista desse movimento é a LHG Mining, controlada pela J&F Investimentos. Responsável por cerca de 80% da produção mineral do município, a empresa projeta elevar sua produção de 12 milhões para 16 milhões de toneladas já em 2026. Em um plano mais ambicioso, anunciado no fim do ano passado, a companhia prevê investimentos próximos de R$ 4 bilhões para alcançar capacidade de até 25 milhões de toneladas anuais.

O crescimento é expressivo quando comparado ao cenário de poucos anos atrás. A operação que deu origem à LHG, após a aquisição da antiga Mineração Corumbaense Reunida (MCR), produzia aproximadamente 2,5 milhões de toneladas por ano. Hoje, a empresa figura entre os principais projetos de expansão mineral do Centro-Oeste brasileiro.
Produção cresce, receita diminui
O descompasso entre o avanço da atividade mineral e a redução dos recursos recebidos pelo município tem gerado preocupação dentro da administração municipal.
Segundo a secretária de Planejamento, Receita e Administração de Corumbá, Camila de Campos Carvalho, os valores atualmente repassados estão muito abaixo do que seria esperado diante do crescimento da produção na região.
A secretária avalia que a situação compromete a capacidade do município de realizar investimentos em áreas que tradicionalmente dependem dos recursos provenientes da mineração, como infraestrutura urbana, saúde e educação.
“O município não está recebendo o retorno financeiro necessário para investir em infraestrutura, saúde e educação, que são justamente essas áreas atendidas pelos recursos da CFEM”, afirmou.

A preocupação aumenta porque Corumbá concentra não apenas a atividade econômica ligada à extração mineral, mas também grande parte dos impactos associados à operação.
O município abriga minas, áreas de processamento, corredores logísticos, estradas utilizadas para transporte de cargas e estruturas portuárias destinadas ao escoamento da produção. Nos últimos anos, moradores de diferentes regiões passaram a relatar problemas relacionados ao aumento do fluxo de caminhões, à emissão de poeira mineral e ao desgaste da infraestrutura viária.
Segundo a prefeitura, a redução da arrecadação limita a capacidade de resposta do poder público justamente em setores que sofrem pressão direta da expansão econômica.
Expansão bilionária
A discussão ganha ainda mais relevância diante dos projetos atualmente em andamento na região.

Além da ampliação da produção mineral, a LHG conduz projetos para expansão de sua infraestrutura logística e portuária em Corumbá. Estudos ambientais apresentados recentemente apontam investimentos estimados em cerca de R$ 1,9 bilhão para ampliação das estruturas de armazenamento e movimentação de minério destinadas ao escoamento da produção pelo Rio Paraguai.
O plano prevê aumento significativo da capacidade operacional do terminal utilizado pela empresa, acompanhando o crescimento da extração mineral no Maciço do Urucum.

Estimativas de mercado apontam que o faturamento anual da companhia pode variar entre R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões. Apesar disso, a receita efetivamente gerada pelas operações locais não é divulgada publicamente.
Município busca explicações
A administração municipal afirma que busca compreender os fatores que levaram à redução dos repasses.
Segundo Camila, a prefeitura mantém diálogo com o Governo do Estado e acompanha questões relacionadas ao enquadramento fiscal das operações ligadas à mineração.
“Seguimos em diálogo com o governo do estado, já que o município de Corumbá não tem acesso direto às informações detalhadas das notas fiscais. Identificamos, inclusive, que está sendo utilizado um CFOP diferente do adotado anteriormente”, explicou.
De acordo com a secretária, alterações dessa natureza podem impactar diretamente os índices utilizados na composição das receitas destinadas ao município.

Enquanto tenta esclarecer as causas da redução dos repasses, Corumbá convive com uma realidade cada vez mais evidente. A mineração cresce em ritmo acelerado, amplia investimentos e expande sua capacidade produtiva, mas os recursos destinados ao município não acompanham a mesma trajetória.

O resultado é um debate que ganha força na região. Em um dos maiores polos minerais do país, a discussão já não gira apenas em torno da quantidade de minério extraída do solo pantaneiro, mas também sobre quanto dessa riqueza permanece efetivamente na cidade onde ela é produzida.
