Déficit acumulado mantém cheia do Pantanal abaixo da média histórica em 2026

Rosana Nunes em 19 de Maio de 2026

Raquel Brunelli/Embrapa Pantanal

A dinâmica hidrológica da Bacia do Alto Paraguai (BAP) durante a estação chuvosa de 2025–2026, entre outubro e março, resultou em uma recuperação parcial dos níveis dos rios do Pantanal. No entanto, o volume ainda é insuficiente para restabelecer uma cheia próxima ao padrão histórico sazonal da região.

 

De acordo com dados analisados pela Embrapa Pantanal, a cheia registrada neste ano reflete os efeitos do déficit hídrico acumulado desde 2019, além da irregularidade das chuvas observadas nos últimos meses.

Na estação fluviométrica de Ladário (MS), referência no monitoramento da planície pantaneira, o nível do rio Paraguai atingiu 1,95 metro em 19 de abril de 2026, cerca de 1,2 metro abaixo da média histórica para o período, estimada em aproximadamente 3,18 metros. Nesta terça-feira, 19 de maio, a altura registrada é de 2,21 metros.

Segundo o pesquisador da Embrapa Pantanal, Carlos Padovani, a análise da série histórica de chuvas entre 1981 e 2026, baseada em dados de satélites, mostra que o acumulado de precipitações entre outubro de 2025 e março de 2026 ficou entre 10% e 12% abaixo da média histórica em toda a Bacia do Alto Paraguai, abrangendo áreas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

“Além do déficit acumulado, houve forte irregularidade intra-sazonal, especialmente em janeiro de 2026, quando ocorreu uma anomalia negativa expressiva de chuvas. Em fevereiro houve recuperação pontual, mas insuficiente para sustentar um pulso contínuo de inundação”, explica o pesquisador.

Padovani ressalta que, no Pantanal, a formação das cheias depende não apenas do volume de chuva, mas também da distribuição regular das precipitações ao longo do tempo e da sincronização dos fluxos hídricos vindos das áreas de planalto.

 

 

Divulgação/Arquivo Raquel Brunelli

Compare as fotos: Porto da Manga, na grande cheia registrada em 2011 (5,62 metros) e, a outra, tirada num período de seca

Memória hidrológica

 

O pesquisador destaca ainda que os níveis atuais dos rios precisam ser analisados considerando a chamada “memória hidrológica” do sistema.

Segundo ele, as séries fluviométricas entre 2021 e 2026 fazem parte de um período mais amplo de estiagem iniciado em 2019, marcado por sucessivos déficits de armazenamento hídrico.

“Nesse cenário, parte da água das chuvas é utilizada primeiro para recompor estoques no solo, aquíferos e canais. Isso reduz a geração de escoamento superficial e enfraquece a propagação das cheias pela planície pantaneira”, afirma.

Como consequência, a resposta hidrológica da bacia ocorre de forma desigual, com elevação mais rápida dos níveis em áreas de montante e forte atenuação ao longo da planície, devido à baixa declividade e à grande capacidade de armazenamento lateral do Pantanal.

Apesar da cheia abaixo da média, o cenário não deve causar prejuízos significativos à navegação nem às atividades econômicas dependentes do rio Paraguai, como o transporte de cargas e o turismo.

A principal atividade beneficiada deverá ser a pecuária bovina nas áreas próximas ao rio. “Nessas áreas, os solos mais férteis e a boa disponibilidade de água favorecem o desenvolvimento das pastagens nativas, principal fonte de alimento dos animais”, disse o pesquisador.

Por outro lado, a cheia pequena tende a impactar negativamente a produção pesqueira no Pantanal.

 

Pesquisas da Embrapa Pantanal apontam que a produtividade dos peixes está diretamente relacionada à altura e ao tempo de permanência das inundações. Cheias mais amplas e duradouras garantem maior oferta de alimento e abrigo para peixes adultos e jovens, favorecendo tanto a reprodução quanto o crescimento das espécies.

Com informações da assessoria de imprensa da Embrapa Pantanal.