Vacina contra covid foi legado que ampliou capacidade do SUS, diz Fiocruz

PorRedação20 de janeiro de 2026

Bio-Manguinhos, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz, avança neste ano com estudos clínicos que derivam diretamente da mobilização empreendida durante a pandemia, incluindo testes humanos de vacinas em plataforma de RNA mensageiro e ensaios para uma terapia contra a atrofia muscular espinhal.

Transferência de tecnologia e cronologia

A ação do instituto começou já em março de 2020, quando Bio-Manguinhos inaugurou a produção de testes para diagnóstico do novo coronavírus, e seguiu com prospecção de candidatas a vacina ao redor do mundo até a negociação com a Universidade de Oxford e a Astrazeneca, iniciada em agosto daquele ano.

A primeira remessa pronta da vacina Oxford/Astrazeneca chegou ao Brasil em janeiro de 2021, com 2 milhões de doses, e a aplicação teve início no dia 23 de janeiro. A partir de fevereiro de 2021, apenas o ingrediente farmacêutico ativo IFA passou a ser importado, enquanto o envase, a rotulagem e o controle de qualidade passaram a ser feitos nas instalações do instituto.

A nacionalização do IFA ocorreu em etapas e resultou em vacinas produzidas integralmente em solo brasileiro a partir de fevereiro de 2022, com o instituto entregando, ao todo, 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações.

Rosane Cuber, diretora do instituto, explicou o fundamento científico por trás da rapidez no desenvolvimento. “Elas só passaram por uma adequação. Não surgiram do nada. Tem muito acúmulo de pesquisa, muito acúmulo de conhecimento que foi aproveitado pro desenvolvimento rápido de novas vacinas” Essa base permitiu alavancar plataformas já testadas, como RNA e vetor viral, sem ruptura com práticas estabelecidas.

Sobre a escalação quase exclusiva dos esforços do instituto para a vacina, Rosane relatou a mudança de prioridade interna. “A gente conseguiu porque nós paramos todas as outras atividades do instituto. Os grupos todos se voltaram para esse único objetivo de trazer a vacina, com muitos treinamentos diários” Em paralelo, houve apoio da sociedade civil para aquisição de equipamentos e insumos.

O processo também contou com acompanhamento regulatório. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acompanhou as adaptações e procedimentos desde as primeiras etapas, reforçando a segurança do produto em todas as fases de transferência de tecnologia.

Impactos e continuidade para o SUS

O esforço de produção rendeu efeitos diretos além da campanha de imunização. “A gente já tem uma história muito grande de fazer transferência de tecnologia e de produzir aqui. Então, realmente, só foi possível porque Bio-Manguinhos tinha capacidade instalada. A gente já tem vacinas que são completamente nacionalizadas, que são produções nossas de muitos anos. E que possibilitaram não só um conhecimento técnico, mas também uma capacidade industrial instalada” Segundo Rosane, essa base industrial viabilizou a produção em grande escala e a transferência plena do processo produtivo.

Apesar de a produção pela Fiocruz ter sido interrompida com o fim da pandemia, quando o Ministério da Saúde passou a adquirir vacinas mais modernas, especialistas estimam que cerca de 300 mil vidas foram poupadas apenas no primeiro ano da vacinação no país, e o imunizante produzido pelo instituto foi o mais utilizado em 2021.

Quanto às aplicações derivadas do aprendizado, Rosane destacou resultados práticos. “Só o fato da gente ter conseguido contornar e bloquear a covid no Brasil, isso por si só já bastaria como legado. Mas, além disso, esse processo nos deixou qualificados e com a estrutura fabril pronta para outros produtos que são importantes também para os SUS” A pesquisa para uma terapia contra a atrofia muscular espinhal, que utiliza plataforma de vetor viral, já tem estudos clínicos autorizados pela Anvisa para começarem este ano.

A respeito do impacto econômico e de soberania na saúde pública, Rosane afirmou que há ganho comparativo para o sistema público. “São terapias caríssimas e que a gente vai conseguir fazer uma redução aí significativa de custo pro SUS” e destacou a importância de produzir localmente. “Covid é um vírus que veio para ficar. Hoje, ele não é mais pandêmico, mas a gente ainda tem surtos. Se eu produzo essa vacina nacionalmente, eu reduzo o preço, e tem uma questão de soberania. Com uma vacina 100% nacional, você não precisa depender de ninguém”

O reconhecimento internacional também aumentou a projeção do instituto. Bio-Manguinhos foi indicado como um dos seis centros de produção pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias, o que o coloca como ponto de referência para rápida resposta na América Latina em caso de novas emergências.

A Organização Mundial da Saúde selecionou o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz como hub regional para desenvolvimento de produtos com plataforma de RNA mensageiro, reconhecimento que Rosane relaciona ao caráter público da instituição. “O nosso direcionamento não é o lucro, mas sim aquilo que é lucro para sociedade. A gente faz entregas para a população brasileira”

O legado técnico, regulatório e industrial resultante da mobilização contra a covid mantém hoje uma infraestrutura de produção e pesquisa pronta para atender demandas do SUS, ao mesmo tempo em que abre caminho para reduzir custos de terapias de alto custo e ampliar autonomia do país na resposta a surtos futuros.