PorErik Silva16 de janeiro de 2026
O sorgo consolidou-se como uma cultura estratégica na segunda safra de Mato Grosso do Sul, deixando de ser uma mera alternativa em períodos de dificuldade climática para integrar o planejamento econômico dos produtores rurais. Em um período de apenas cinco safras, a área dedicada ao grão no estado saltou de pouco mais de 5 mil hectares para cerca de 400 mil hectares, um crescimento superior a 7.700%.
De acordo com os dados do SIGA (Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio), ferramenta gerida pelo Governo do Estado em parceria com a Aprosoja, o salto mais significativo ocorreu a partir da safra 2021/2022, quando o sorgo começou a ganhar escala rapidamente. O avanço continuou forte na safra 2024/2025, praticamente dobrando de tamanho.
O secretário Jaime Verruck, da Semadesc, destaca que essa expansão acelerada não é um evento isolado, mas sim resultado de uma decisão estratégica de mercado. Segundo ele, a análise dos dados recentes indica que o fator decisivo para o fortalecimento do sorgo é a demanda estruturada criada pelas usinas de etanol de milho instaladas em Mato Grosso do Sul.
Para Verruck, a consolidação dessas indústrias foi determinante. O secretário explica que o sorgo, apesar de ser conhecido pelos produtores, tinha sua expansão limitada pela ausência de um mercado organizado. “Embora o sorgo sempre tenha sido conhecido pelo produtor, sua expansão era limitada pela falta de demanda estruturada. Isso mudou quando as indústrias passaram a firmar contratos de compra, garantindo previsibilidade, escala e segurança econômica”.
Os dados do SIGA, que mostram com precisão a distribuição e a velocidade do plantio, convergem com as informações da Conab e do IBGE sobre o fortalecimento da cultura na última década. O sorgo tem se encaixado na safrinha, especialmente em áreas onde a janela de plantio após a soja é curta, enfrentando maior risco climático e garantindo a redução de perdas produtivas e financeiras.
A distribuição territorial do sorgo reflete essa gestão de risco. Conforme o SIGA, na safra mais recente, quase metade de toda a área de segunda safra do grão concentrou-se em dez municípios. Ponta Porã e Maracaju lideram o plantio, seguidos por Bonito, Bela Vista e Sidrolândia. Estas são justamente as regiões onde o milho encontra maiores limitações climáticas ou de janela.
O secretário-executivo de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Semadesc, Rogério Beretta, afirma que o sorgo se firma como uma alternativa viável para a segunda safra por suas características agronômicas. “Por ser uma cultura mais resistente às intempéries climáticas e a problemas sanitários, o sorgo se encaixa melhor em áreas marginais, onde o milho teria mais dificuldade”.
Beretta acrescenta que a entrada das usinas de álcool de cereais alterou a lógica de plantio ao superar entraves históricos. Com o mercado garantido, contratos de compra e estrutura de armazenagem disponível, o produtor tem a segurança necessária para investir. “Essas condições, que antes eram obstáculos, hoje dão segurança ao produtor para investir no sorgo”.
No cenário nacional, Mato Grosso do Sul deve se firmar como um dos grandes players. As projeções da Conab, divulgadas em dezembro de 2025, indicam que o Brasil pode ultrapassar 6,6 milhões de toneladas de sorgo na safra 2025/2026, com o estado ocupando a quarta posição entre os maiores produtores. O secretário Jaime Verruck conclui que o sucesso do sorgo no estado demonstra que, havendo mercado, contratos e visão de longo prazo, a produtividade cresce e o desenvolvimento se consolida, com as usinas de etanol de milho cumprindo um papel estratégico na integração da produção agrícola e da bioenergia.
