EUA anunciam disposição para agir sozinho contra cartéis na América Latina

PorErik Silva6 de março de 2026

No quartel-general do Comando Sul, em Doral, Flórida, foi realizada na quinta-feira (5) a Conferência das Américas de Combate aos Cartéis com a presença de representantes de 16 países da região, e o evento consolidou uma coalizão para enfrentar o narcotráfico.

No encontro, Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, expôs a disposição norte-americana frente às ameaças descritas pelos organizadores e pelo governo dos Estados Unidos. “Os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados”

Ao explicar o enquadramento estratégico da iniciativa, Hegseth relacionou a ação conjunta com os objetivos da administração que têm sido apresentados nas últimas declarações oficiais dos EUA e na Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro. “Queremos impedir que potências externas ameacem nossa paz e independência em nossa região comum”

No mesmo tom sobre postura e interesses, Hegseth falou sobre acesso e comércio, apontando finalidade econômica e estratégica para a presença americana nas áreas definidas como críticas. “acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio, para que nossas nações possam se industrializar”

Alcance regional e acordos bilaterais

Autoridades presentes incluíram delegações da América do Sul e Central e do Caribe, entre elas Argentina, Guiana, Bolívia, Equador, Paraguai, Chile, Peru, Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago, totalizando 16 países. A conferência ocorreu na sede do Comando Sul dos EUA, órgão responsável pelo monitoramento da América Latina e do Caribe.

O Ministério da Defesa da Argentina informou que, além de uma declaração conjunta cujo texto não foi divulgado, foram firmados acordos bilaterais com os Estados Unidos, e que esses pactos preveem a adaptação do marco jurídico de cada nação como parte substancial do que foi acordado, conforme informações oficiais do governo argentino.

Antes do encontro em Doral, o Senado do Paraguai aprovou um acordo que prevê a presença de militares dos EUA em solo paraguaio com imunidade penal para operações, e o texto precisa ainda passar pela Câmara dos Deputados do país. O Equador e os Estados Unidos anunciaram operações militares conjuntas contra cartéis, e o tema de bases estrangeiras também tem sido debatido internamente: em novembro de 2025, o presidente equatoriano Daniel Noboa submeteu a referendo a permissão para instalar bases militares estrangeiras, proposta rejeitada por cerca de 60% dos eleitores que compareceram às urnas.

Reações públicas e preocupações sobre soberania

Especialistas e chefes de Estado na região reagiram às declarações e ao alcance dos acordos com críticas e advertências quanto à soberania. O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra Ronaldo Carmona contextualizou a relevância da fala do secretário de Defesa e apontou riscos de consequências efetivas nas políticas externas dos EUA. “Pois sob Trump, as ameaças costumam se materializar (vide Venezuela e agora Irã). Ao evocar a Doutrina Monroe, o faz propondo expurgar a presença de potências extrarregionais das Américas, em uma ameaça explícita à liberdade de ação das nações da América Latina”

Carmona também destacou que a questão do ingresso de drogas nos Estados Unidos poderia ser tratada como uma atribuição interna ao Estado norte-americano, e que a narrativa atual pode servir de pretexto para intervenções abertas no continente. “É difícil imaginar que as forças de segurança americana não tenham meios para proteger autonomamente suas próprias fronteiras”

Ao analisar o impacto estratégico sobre a região, o pesquisador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais afirmou que a tentativa de vincular países latino-americanos aos desígnios de Washington representa um constrangimento inaceitável para a soberania regional. “Trata-se de um constrangimento à soberania inaceitável para a América Latina”

O presidente colombiano Gustavo Petro respondeu às declarações ressaltando capacidade e responsabilidade regionais no combate às organizações criminosas e criticou a ideia de ação unilateral americana. “não precisam agir sozinhos para acabar com os cartéis de droga, pois não saberiam como fazê-lo bem. Para destruir os cartéis da máfia, precisamos nos unir”

Em outra mensagem, Petro enfatizou a responsabilidade local para enfrentar o problema que afeta milhões de pessoas e fragilizou a democracia em áreas controladas pela violência. “Se alguém está interessado em destruir os cartéis, são a Colômbia e a América Latina, onde milhões de pessoas foram assassinadas e onde a democracia foi destruída em regiões que vivem sob o terror”

O presidente colombiano acrescentou ainda um convite à cooperação regional em termos humanitários e de segurança. “Portanto, a aliança contra o tráfico de drogas é um Pacto pela Vida e pela Paz, e estamos prontos”

Do México, a presidente Claudia Sheinbaum sinalizou a necessidade de trato entre pares ao tratar do tema com os EUA, defendendo que o combate às drogas seja conduzido com coordenação e equilíbrio entre as partes. “coordenação e sem subordinação, como iguais”

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu a luta contra o narcotráfico na agenda de negociações com o governo americano, enquanto o pesquisador Ronaldo Carmona ressaltou que o país tem historicamente distinguido ações policiais destinadas a combater o tráfico de atividades vinculadas à Defesa e à soberania territorial, e que a tendência é que os EUA busquem militarizar esse enfrentamento. “O Brasil precisa urgentemente, como uma prioridade nacional, enfrentar com todas as energias, a começar das forças de segurança, as organizações criminosas brasileiras, até para não oferecer pretexto a Washington de utilizá-las com fins de ameaça à soberania brasileira”

O panorama apresentado na conferência e as reações dos governos demonstram um esforço de articulação multilateral promovido pelos Estados Unidos na região, acompanhado de preocupações sobre implicações jurídicas, operacionais e de soberania que já têm provocado debates internos em vários países latino-americanos.