PorErik Silva14 de fevereiro de 2026
A BR-262 transformou Corumbá em eixo central do tráfico de cocaína no Pantanal sul-mato-grossense, segundo balanços recentes da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Federal.
A rodovia concentra o maior volume de apreensões do país e conecta a fronteira com a Bolívia a centros de distribuição no Sudeste.
Os dados mostram que o fluxo não depende de um único método. A droga entra no Brasil em pequenas quantidades, engolida por mulas, e também em cargas industriais escondidas em caminhões de minério. Há ainda o uso de ônibus clandestinos e aeronaves leves que operam a partir de pistas ilegais espalhadas pela região.

Em Mato Grosso do Sul, foram apreendidas 13,7 toneladas de cocaína em 2025, quase o dobro do segundo estado no ranking nacional. Segundo a PRF, a BR-262 aparece como a estrada com maior volume de interceptações, superando outros corredores históricos do tráfico.
A posição geográfica de Corumbá sustenta essa engrenagem. A cidade funciona como porta de entrada da cocaína produzida na Bolívia e como ponto de redistribuição para rotas que seguem até São Paulo e, depois, ao exterior. O trajeto é usado tanto para transporte pulverizado quanto para carregamentos de grande escala.

Mulas, ônibus e logística pesada
Somente neste ano, autoridades apreenderam cerca de 44 quilos de cocaína transportados por mulas, sendo a maior parte ingerida. Em Corumbá, 24 pessoas foram presas nesse tipo de operação. Em Limeira, no interior paulista, outras 17 pessoas foram detidas em ações ligadas à mesma rota, reforçando o destino recorrente do corredor.
Em um único dia, fiscais interceptaram 20 quilos de cocaína em dois ônibus clandestinos que cruzavam a região. Estimativas da Receita Federal apontam que ao menos dez veículos semelhantes conseguem passar diariamente sem abordagem, o que indicaria até 100 quilos por dia em circulação.

No transporte pesado, o padrão se repete. Caminhões carregados com minério de ferro extraído em Corumbá foram parados em cidades como Terenos, Campo Grande e Uberlândia, com apreensões que variaram de dezenas a centenas de quilos. Parte dessas cargas tinha destino declarado em Minas Gerais, mas investigadores afirmam que a rota segue até o Sudeste e, em muitos casos, ao Porto de Santos.

A PF afirma que o modelo opera como um consórcio criminoso, com divisão de custos, lucros e perdas. A facção PCC aparece como principal articuladora do esquema, segundo agentes que acompanham as investigações.
Além das estradas, o tráfico mantém uma malha aérea paralela. Pistas clandestinas avançam pela fronteira com Bolívia e Paraguai e cortam áreas remotas do Pantanal, permitindo o transporte rápido em pequenas aeronaves, onde a fiscalização é limitada.

Prisões recentes de operadores ligados ao PCC na Bolívia e na faixa de fronteira reforçam o peso estratégico do corredor. Para investigadores, o desafio é ampliar a presença estatal e integrar inteligência em um território onde o crime se move por estrada, ar e rios com vantagem operacional.
