Mato Grosso do Sul aplica anticorpo monoclonal contra bronquiolite em bebês prematuros

PorErik Silva3 de fevereiro de 2026

Estratégia estadual de proteção contra o Vírus Sincicial Respiratório usa nirsevimabe e visa reduzir significativamente as internações hospitalares na rede pública.

Mato Grosso do Sul iniciou na segunda-feira (2) a aplicação do nirsevimabe, um anticorpo monoclonal destinado à proteção contra o VSR (vírus sincicial respiratório), principal causador de infecções graves como bronquiolite e pneumonia. As primeiras doses foram administradas na Maternidade Cândido Mariano, em Campo Grande, marcando o início da estratégia estadual para proteger recém-nascidos mais vulneráveis.

A iniciativa conta com o apoio do Governo do Estado, por meio da SES (Secretaria de Estado de Saúde), e das unidades hospitalares que compõem a rede de atenção neonatal. O imunizante, que antes estava disponível apenas na rede privada, agora integra a Rede de Imunobiológicos Especiais do SUS, representando um avanço crucial para a saúde neonatal sul-mato-grossense.

O nirsevimabe é indicado para bebês nascidos com até 36 semanas e 6 dias de gestação, além de crianças com até 24 meses de idade que possuam comorbidades. Conforme os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde, a proteção é estendida a pacientes com condições como síndrome de Down, cardiopatias congênitas e fibrose cística.

A proteção é garantida em dose única para bebês prematuros. Já as crianças com comorbidades, de até 24 meses, recebem duas doses, sendo uma em cada período sazonal de exposição ao vírus. O principal objetivo da estratégia é reduzir o número de internações por bronquiolite, especialmente nos meses de maior circulação do vírus sincicial respiratório, período em que historicamente há maior pressão sobre a capacidade de leitos hospitalares.

A coordenadora de imunização da Maternidade Cândido Mariano, Keila Lacerda, lembrou o cenário recente enfrentado pelas unidades de saúde. “No ano passado, vivemos uma crise de leitos devido aos surtos da doença. A expectativa é que essa estratégia contribua para reduzir significativamente as internações”. Ela ressalta que, após a aplicação do imunizante, os bebês permanecem em observação, devido à possibilidade de reações leves, como em qualquer processo de imunização.

A técnica da Coordenação Estadual de Imunização da SES, Maristela Chamorro, destacou a relevância da incorporação do medicamento na rede pública. “O nirsevimabe chegou em um momento oportuno e passa a ser ofertado de forma contínua. Bebês prematuros de até 36 semanas e 6 dias e crianças com comorbidades terão acesso à proteção, conforme os critérios definidos pelo Ministério da Saúde”.

A oferta gratuita do imunizante tem um impacto social significativo, visto que, na rede particular, o custo pode variar entre R$ 1.500 e R$ 3.500. Antes de iniciar a aplicação, a SES realizou um levantamento técnico sobre os nascimentos prematuros e a capacidade de atendimento das maternidades, garantindo que as doses fossem enviadas de acordo com a média mensal de cada unidade.

Logística de Distribuição e Acesso

Em Campo Grande, a Maternidade Cândido Mariano adota um esquema semanal, com administração às quintas-feiras nas unidades intermediárias e UTIs neonatais. As maternidades Santa Casa, Hospital Universitário, Hospital Regional e Cândido Mariano realizam a aplicação exclusivamente em bebês que estão internados.

Para os demais municípios de Mato Grosso do Sul, a distribuição do imunobiológico é organizada por meio do Sistema E-Crie, uma plataforma digital da SES que gerencia a solicitação e o envio de imunobiológicos especiais para todos os 79 municípios. O acesso para as famílias que se enquadram nos critérios ocorre mediante busca na Unidade Básica de Saúde do próprio município para receber as orientações e o encaminhamento necessário.

Na Capital, o acesso para bebês que não estão internados ocorre mediante contato prévio pelo telefone (67) 99875-3662, junto à Sesau, para agendamento e orientações. Após o contato, as famílias são direcionadas para as Unidades Básicas de Saúde dos bairros Marabá, Alves Pereira, Jardim Presidente e Cristo Redentor.

O Ministério da Saúde também autorizou o resgate vacinal para crianças nascidas a partir de agosto de 2025, desde que atendam aos critérios estabelecidos no informe técnico vigente.

Proteção Complementar e Impacto Familiar

A Diretora Técnica da Maternidade Cândido Mariano, Karina Zucarelli, enfatizou que a chegada do nirsevimabe muda a perspectiva de proteção para os bebês mais vulneráveis, após surtos recentes que exigiram isolamento hospitalar. Ela explica que a estratégia adotada é complementar.

“A vacina aplicada na gestante, a partir da 28ª semana de gestação, protege o bebê ainda durante a gravidez. Já o nirsevimabe garante proteção direta ao recém-nascido. Essa proteção dupla amplia significativamente a capacidade de enfrentamento ao vírus nos primeiros meses de vida”, pontuou a diretora.

O impacto da oferta gratuita é sentido diretamente pelas famílias, como a de Melina, que nasceu prematura com 32 semanas e passou 43 dias internada na UTI Neonatal. A mãe, Paula Rodrigues, expressou a sensação de alívio com a imunização da filha. “Minha filha nasceu prematura e passou muito tempo internada. Saber que ela está recebendo essa proteção traz mais segurança e tranquilidade para nossa família”.

Paula Rodrigues também destacou a relevância do fornecimento pelo SUS. “É um imunizante de alto custo. Nem todas as famílias conseguem pagar, então receber essa proteção pelo SUS faz toda a diferença”. A SES mantém a expectativa de ampliar gradativamente o número de doses disponíveis, conforme a demanda e os registros de nascimentos prematuros no Estado.