Jovem de MS que ficou tetraplégico aguarda autorização para procedimento com polilaminina

Jennifer Ribeiro, Murilo Medeiros-14/01/2026

Anualmente, milhares de pessoas sofrem lesões na medula espinhal em decorrência de acidentes, o que pode resultar na perda parcial ou total da capacidade de locomoção e de sensibilidade dos membros. No entanto, a polilaminina, uma substância desenvolvida a partir da laminina — proteína extraída da placenta —, pode mudar a realidade desses pacientes.

No Brasil, uma pesquisa conduzida há mais de 20 anos pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em parceria com o Laboratório Cristália, já demonstrou resultados promissores na recuperação de pacientes com esse tipo de lesão, por meio da substância.

Recentemente, este estudo recebeu aprovação do Ministério da Saúde e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), reforçando a expectativa de avanço no tratamento de pessoas com lesões na medula espinhal.

Paciente campo-grandense

O paciente é um jovem de 19 anos, militar, que sofreu um disparo de arma de fogo de forma acidental no 2° semestre de 2025. O episódio resultou em uma lesão medular cervical grave, levando ao quadro de tetraplegia.

Desde o ocorrido, ele está sob acompanhamento médico especializado, sem resposta a terapias convencionais. É por este motivo que a equipe passou a avaliar alternativas terapêuticas excepcionais, diante da gravidade e da ausência de opções eficazes.

Inicialmente, o procedimento cirúrgico estava agendando para acontecer nesta quarta-feira (14), no Hospital Militar de Área de Campo Grande, porém, foi adiado.

Em entrevista ao Jornal Midiamax, o advogado Gabriel Traven Nascimento, que representa o paciente campo-grandense, explica que o adiamento não ocorreu por alta demanda do laboratório ou de qualquer indisponibilidade técnica, ou médica.

Segundo ele, o laboratório já sinalizou disponibilidade da polilaminina, que será ofertada gratuitamente. A equipe médica também está organizada para a realização do procedimento, aguardando, apenas, a autorização.

Ação judicial

O advogado explica que a ação judicial foi protocolada em janeiro de 2026, em caráter de urgência, após a equipe médica confirmar a existência de uma janela terapêutica crítica, ou seja, um período decisivo para o tratamento, incompatível com o tempo normal dos trâmites administrativos.

Atualmente, o processo já conta com uma decisão favorável em primeira instância, que reconheceu a gravidade do caso e a urgência do tratamento, determinando que a Anvisa se manifeste em um prazo reduzido.

Ao mesmo tempo, o caso também está sob análise do tribunal, por meio de recurso, visando garantir que o tempo, fator determinante nesse tipo de lesão, não comprometa o direito do paciente à saúde.

“O fator determinante para o reagendamento foi exclusivamente o trâmite regulatório-jurídico, uma vez que se trata de uso compassivo de medicamento ainda não registrado, o que exige autorização formal, seja administrativa [Anvisa], seja judicial. O caso já obteve decisão favorável em primeiro grau, que reconheceu a urgência e impôs prazo reduzido à Anvisa. Até a conclusão dessa etapa, por cautela médica e jurídica, optou-se por reagendar o procedimento, preservando a segurança institucional de todos os envolvidos”, explica.

Prazo para a cirurgia

Considerando o fator tempo, é imprescindível que a cirurgia ocorra em breve. O advogado explica que a decisão judicial de primeiro grau determinou que a Anvisa se manifeste no prazo de 72 horas, contadas do protocolo do pedido administrativo, ou seja, desde terça-feira (13).

Caso não haja manifestação dentro desse prazo, o próprio juízo poderá analisar imediatamente o pedido e autorizar a realização do procedimento. Do ponto prático, a cirurgia poderá ser programada para a próxima semana.

“Tanto a equipe médica quanto o escritório permanecem em regime de prontidão justamente para que, encerrado esse prazo regulatório, o procedimento possa ser viabilizado sem novos atrasos, preservando a janela terapêutica identificada pelos médicos. Trata-se de um cenário realista e positivo, que demonstra que a tutela concedida em primeiro grau já produziu efeitos concretos e colocou o caso em regime de prioridade absoluta”, conclui.

Pesquisa com polilaminina

A pesquisa com a substância polilaminina busca avaliar a segurança da aplicação do medicamento e identificar possíveis riscos para a continuidade do desenvolvimento clínico.

Em 2023, o estudo clínico de fase 1 do projeto “Uso de células-tronco mesenquimais, hematopoéticas e neurais na regeneração de lesões raquimedulares induzidas por laminina ácida” obteve aprovação ética do Ministério da Saúde, uma das etapas necessárias para a realização de testes clínicos em seres humanos.

Com a autorização concedida pela Anvisa, no último dia 5, o estudo clínico da polilaminina será realizado em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, portadores de lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão. Os locais de realização ainda serão definidos pela empresa responsável.

Vale pontuar que o paciente campo-grandense não fará parte desta etapa do estudo.