Por Erik Silva 13 de janeiro de 2026
O episódio mais recente que desencadeou uma onda de protestos por todo o país foi a morte a tiros de Renee Nicole Good no dia 7 de janeiro, ocorrida durante ação de agentes do ICE no estado de Minnesota. Nas últimas semanas, mais de mil manifestações foram registradas nas ruas dos Estados Unidos em reação direta ao caso e ao papel da agência na política migratória.
A agência federal foi criada em março de 2003, reunindo as antigas instâncias de alfândega e controle de fronteiras com a missão de combater o que o governo considera imigração ilegal que ameaça a segurança nacional, origem que explica parte do escopo e dos poderes da organização.
Orçamento e estrutura
Na gestão de Donald Trump, os recursos destinados ao ICE cresceram de forma expressiva e sustentaram tanto a ampliação do efetivo quanto a expansão de infraestrutura.
O aumento orçamentário permitiu, já no primeiro ano do governo, a contratação de 12 mil agentes, elevando o quadro para 22 mil policiais, um crescimento de 120% em relação ao contingente anterior, e a previsão de investimentos bilionários em centros de detenção.
Antes de expor os números comparativos que ilustram a dimensão desse investimento, o Conselho Americano de Imigração explicou o impacto das verbas na política de detenção.
“Isso representa um aumento de 265% no orçamento anual do ICE para detenção. É um orçamento 62% maior do que todo o sistema prisional federal”
O cálculo do orçamento anual do ICE chegou a US$ 29,9 bilhões, segundo levantamento do mesmo conselho, valor que considera também gastos diretamente relacionados à fiscalização e à deportação, e que, junto a outros US$ 45 bilhões, foi direcionado à construção de centros de detenção para imigrantes.
A meta estabelecida pela administração incluiu o objetivo de deportar, em média, 1 milhão de pessoas sem documentos por ano, diante de uma estimativa de 14 milhões de imigrantes em situação irregular nos EUA, conforme cálculos do Pew Research Center.
Métodos, reações e críticas
Organizações de direitos humanos apontam para o uso de práticas agressivas por parte dos agentes em ações realizadas, com impacto concentrado em bairros de população não branca. Entre as denúncias estão prisões em vias públicas, em escolas e em igrejas, operações conduzidas com veículos sem identificação e agentes mascarados, além de remoções sem observância dos trâmites legais completos.
O professor emérito James N. Green ressaltou o efeito intimidador dessas operações e relacionou a violência policial à resposta comunitária que vem se formando nas ruas.
“Eles usam máscaras e essa truculência para assustar as pessoas, para que cedam e se entreguem, pensando que não tem outra opção. Agora, há um grande movimento nos EUA para educar as pessoas sobre os seus direitos. O que eles podem falar, o que não tem o que falar para se manterem seguros”
James N. Green também atua como presidente do Washington Brazil Office e avaliou que a mobilização social, incluindo solidariedade de comunidades brancas a pessoas não brancas, tem crescido como forma de proteção a imigrantes vulneráveis.
A própria agência se posicionou sobre as manifestações e buscou justificar suas operações citando a remoção de indivíduos considerados criminosos perigosos, em comunicado oficial.
“Enquanto o ICE luta para deportar os piores imigrantes ilegais criminosos de Minnesota – incluindo estupradores de crianças, assassinos e outros – manifestantes violentos e agitadores tentam ativamente proteger esses criminosos cruéis, interferindo e obstruindo as operações do ICE”
Políticos democratas, organizações de direitos humanos e especialistas acadêmicos têm classificado a atuação do órgão como problemática e, em alguns casos, com caráter político.
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva expressou reação contundente ao comparar a agência a estruturas repressivas históricas e ao apontar seus alvos preferenciais.
“O ICE é a Gestapo [polícia secreta da Alemanha nazista] de Trump. Seu alvo é o ‘outro conveniente’, o indígena, o negro e o pardo, que não fala inglês”
A assessoria de organizações independentes também chama atenção para a amplitude dos poderes atribuídos ao ICE desde sua criação após o 11 de setembro, incluindo menor transparência e menos salvaguardas que outras agências de aplicação da lei.
“O ICE é obrigado a seguir a Constituição dos EUA e a lei federal. No entanto, quando a agência foi criada após o 11 de setembro, recebeu autoridades únicas e ampla liberdade para aplicar as leis de imigração e apoiar os esforços antiterroristas do FBI com menos transparência e menos salvaguardas do que outras agências de aplicação da lei”
Analistas políticos apontam ainda para a falta de freios institucionais recentes. O cientista político Fábio de Sá e Silva ressaltou como as ações do ICE foram legitimadas por instituições e observou a ausência de procedimentos congressuais de supervisão, além de decisões judiciais que influenciam as abordagens.
“Toda a ação do ICE vinha sendo incrivelmente legitimada pelas instituições. O Congresso americano, que poderia fazer um contraponto a essa atuação na sua função de fiscalização do poder Executivo, não iniciou nenhum procedimento”
“Tem uma decisão que permitiu que o ICE pudesse fazer abordagem com base em estereótipos, com base na língua que as pessoas falam nas ruas e com base no que ela se parece.”
As críticas e os protestos mantêm vivo o debate sobre os limites da aplicação da lei migratória nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que expõem a tensão entre metas de deportação, instrumentos financeiros, práticas de campo e as garantias legais previstas na Constituição e em decisões judiciais recentes.
