Alta nos combustíveis na Bolívia inverte fluxo e leva bolivianos a abastecer em Corumbá

Leonardo Cabral em 26 de Dezembro de 2025

Leonardo Cabral/Diário Corumbaense

Por muitos anos, moradores de Corumbá e Ladário cruzaram a fronteira para abastecer veículos com combustível mais barato na Bolívia. No entanto, nos últimos dias, o cenário se inverteu: motoristas bolivianos passaram a procurar postos de gasolina no lado brasileiro da fronteira.

 

A mudança está diretamente relacionada ao aumento expressivo no preço dos combustíveis na Bolívia, após a edição do Decreto Supremo nº 5503, assinado recentemente pelo presidente do país, Rodrigo Paz. O decreto foi anunciado quando o chefe de Estado declarou emergência econômica e apresentou um pacote de medidas consideradas drásticas.

Entre as ações anunciadas estão a eliminação dos subsídios aos combustíveis e a flexibilização do regime cambial. As medidas provocaram um aumento de cerca de 86% no preço da gasolina e superior a 160% no diesel. Os novos valores terão vigência inicial de seis meses, período após o qual serão reavaliados.

Durante pronunciamento à imprensa do país, o presidente Rodrigo Paz afirmou que o fim dos subsídios visa reorganizar as finanças públicas. “Eliminar subsídios mal concebidos não significa abandono, mas sim ordem, justiça e redistribuição real e transparente. Isso permitirá a geração de recursos fiscais adicionais a serem compartilhados entre os governos central e regionais”, declarou.

Reflexos na fronteira

O decreto gerou reações contrárias em diversos setores da Bolívia, especialmente no transporte público. Na região de fronteira, os efeitos são sentidos de forma direta. Em Corumbá, postos de combustíveis registraram aumento significativo no número de veículos com placas bolivianas.

Ao Diário Corumbaense, frentista de um dos postos mais movimentados da região central relatou crescimento na procura por abastecimento. Segundo ele, o fluxo de veículos bolivianos aumentou entre 30% e 40% nos últimos dias.

“Percebemos claramente o aumento de carros da Bolívia. Muitos motoristas relatam que, apesar do preço aqui ainda ser mais alto, o abastecimento é rápido e garantido. Do outro lado, além do aumento, a reposição dos combustíveis é lenta e isso pesa no bolso”, afirmou.

Boliviano de 22 anos, que preferiu não ter o nome divulgado, confirmou a tendência. Ele disse que a decisão de abastecer em Corumbá já vinha sendo considerada antes mesmo do anúncio oficial do reajuste.

“Já enfrentávamos escassez de combustível, com filas de até dois dias nos postos. Agora, com o aumento dos preços e a falta de produto, prefiro abastecer em Corumbá. Pago mais, mas abasteço na hora, sem ficar horas ou dias esperando”, relatou.

Segundo ele, antes do reajuste, o litro da gasolina custava em média 4,20 bolivianos. Após o decreto, o valor subiu para cerca de 7 bolivianos, podendo chegar a 12 bolivianos em pontos de venda clandestinos. “Não compensa”, avaliou.

Situação no país

Em grandes centros urbanos como La Paz, alguns postos chegaram a suspender as vendas após motoristas tentarem estocar combustível subsidiado, conforme reportagens da mídia local.

A Bolívia, que mantinha um dos combustíveis subsidiados mais baratos, enfrenta queda na produção de gás natural, redução das reservas internacionais e escassez de dólares, fatores que vêm impactando negativamente a economia do país.

O decreto também autoriza o Banco Central da Bolívia a adotar medidas para garantir liquidez, como a criação de linhas de financiamento, emissão de instrumentos financeiros externos, operações de proteção cambial e swaps cambiais, com o objetivo de estabilizar a balança de pagamentos.

Além disso, o presidente anunciou um programa de estímulo e proteção a investimentos nacionais e estrangeiros, com garantia de estabilidade jurídica e tributária por até 15 anos. O pacote inclui a promessa de que futuras mudanças regulatórias não afetarão investimentos protegidos sem o consentimento dos investidores.

O decreto ainda orienta a transição para um novo regime cambial, o que pode encerrar o câmbio fixo adotado desde 2011, que mantinha o boliviano a 6,96 por dólar, enquanto a cotação no mercado paralelo se aproxima de 10 bolivianos.

Com informações de O Globo.