Na mira de Trump, Pix trouxe inovações para o comércio em MS e não é canal para negócios com o exterior

Idaicy Solano – Midiamax

A ferramenta Pix, criada pelo Banco Central e amplamente utilizada em transações bancárias feitas no dia a dia da população sul-mato-grossense, ainda não é vista como uma alternativa para negociações de importação e exportação com o comércio exterior. Na mira dos EUA, a modalidade de pagamento virou alvo de investigação em processo aberto pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Em quatro anos desde seu lançamento, o Pix se tornou o meio de pagamento mais popular entre os brasileiros, utilizado por 76,4% da população. A informação é de um levantamento do BC (Banco Central), divulgado em dezembro de 2024. Além disso, a modalidade conta com 171,5 milhões de usuários cadastrados (pessoas físicas e jurídicas) e um total de 816,8 milhões de chaves ativas, conforme o BC. 

Em , o sistema de pagamento instantâneo trouxe facilidade e maior flexibilidade para as relações comerciais, desde os centros urbanos, até as áreas rurais. 

Conforme observa o analista de economia do Departamento Técnico da  (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Jean Carlos da Silva Américo, assim como em outras atividades econômicas, o Pix passou a fazer parte da rotina financeira de quem atua no campo. 

“O produtor rural utiliza a ferramenta de acordo com suas necessidades operacionais, estrutura de gestão e nível de acesso à tecnologia, o que varia entre pequenas, médias e grandes propriedades”, destaca.

No meio rural, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos costuma ser utilizado para transações do dia a dia, como compras de insumos, despesas com fornecedores locais, contratação de serviços, transporte de cargas, pequenos reparos e remuneração de mão de obra eventual. 

Já no que diz respeito a transações de grandes valores, ou ligadas ao comércio exterior, o setor segue utilizando os modelos de operações tradicionais, como contratos bancários, operações de câmbio e outros mecanismos específicos de liquidação, que atendem às exigências formais e regulatórias dessas transações, conforme explica Américo. 

“O principal benefício do Pix é a agilidade para fazer transferências a qualquer hora, o que facilita pagamentos imediatos, elimina burocracias de horário bancário e reduz a circulação de dinheiro vivo. Esses mesmos benefícios são percebidos no meio rural, onde é comum haver pagamentos a fornecedores, pequenos prestadores de serviços e funcionários fora do horário comercial ou em localidades mais distantes dos centros urbanos”, exemplifica.

Em relação aos possíveis impactos que possam surgir diante da investigação aberta pelo governo norte-americano, Américo cita possíveis mudanças de regras ou restrições no funcionamento do Pix. No entanto, reforça que qualquer ajuste costuma seguir as diretrizes gerais do mercado financeiro, e que os reflexos para o agro ocorrem de forma semelhante a outros setores. “Apesar dessas possibilidades, o cenário ainda exige cautela e acompanhamento das definições”.

Associação Comercial destaca Pix como ferramenta de inovação

O vice-presidente da ACICG (Associação Comercial e Industrial de ), Omar Aukar, declara que a Associação não acredita que a investigação por parte do governo norte-americano vá gerar algum impacto sobre a utilização do Pix no Brasil, e nem deva interferir nas atuais discussões sobre a imposição de tarifas ao Brasil.

“Apesar de o Pix ter trazido prejuízos aos bancos e operadoras de cartão de crédito que deixaram de faturar pela gratuidade desse serviço, ele é um sistema de pagamento fruto de uma evolução tecnológica e que se tornou muito importante para o setor empresarial e para os consumidores”, comenta.

Além disso, Aukar destaca que a modalidade oferece vantagens como pagamentos rápidos, redução de custos, maior segurança, melhoria da gestão financeira, e seu sucesso de adesão atrai olhares para além das fronteiras. “Vale lembrar que a ferramenta de pagamento instantâneo criada pelo Banco Central tem despertado o interesse de outros países também, comprovando seu poder de inovação”, conclui. 

Em Mato Grosso do Sul, 54% dos clientes micro e pequenos empreendedores utilizam o Pix como principal meio de pagamento, de acordo com dados mais recentes levantados na pesquisa “Pulso dos Pequenos Negócios”, elaborada pelo Sebrae/MS em parceria com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

O levantamento também colocou o Estado como líder no ranking nacional no uso do Pix como forma para aquisição de produtos e contratação de serviços no ano de 2023. Foi constatado também que 14% dos consumidores preferem o cartão de crédito, e 9% optam pelo cartão de débito. ​

Por que o Pix virou alvo do governo dos EUA? 

Conforme o relatório preliminar da USTR, o governo norte-americano acusa o Brasil de adotar ‘práticas desleais’ em serviços de pagamentos eletrônicos. Apesar do documento não citar especificamente o Pix, uma das linhas de investigação aborda ‘serviços de comércio digital e pagamento eletrônico’, incluindo serviços do governo, sendo que a modalidade representa o único sistema da instituição voltado a esta finalidade. 

O documento ainda inclui outros tópicos de investigação, como: pirataria, em que faz menção à Rua 25 de Março, um dos maiores centros comerciais da cidade de  (SP); tarifas protegidas sobre produtos norte-americanos (como o etanol); , desmatamento; e restrições à transferência nacional de dados. 

A principal motivação para colocar o Pix na ‘berlinda’, está em uma suposta vantagem concedida pelo governo brasileiro ao modelo de transação. Conforme justifica a USTR, a modalidade teria sido estruturada com intuito de beneficiar serviços locais, causando prejuízos a soluções de pagamento oferecidas por empresas norte-americanas.  

Dessa forma, o governo norte-americano alega estar sendo prejudicado pelo caráter gratuito, instantâneo e massivo do Pix, ocasionando uma mudança estrutural no setor de pagamentos, reduzindo receitas de operadoras de cartão, como Visa e Mastercard, e de sistemas privados que cobram taxas.

A reportagem procurou o Banco Central, bem como a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), para solicitar um posicionamento referente à investigação por parte do governo norte-americano, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.